EM APUROS NA FRANÇA

       Viajando pelo sudoeste da França a negócios, desviei um pouco do caminho para entrar na cidade de Lourdes, onde consta ter havido o aparecimento da Virgem Maria a uma adolescente chamada Bernadette em 1858. Cidade muito bonita aos pés dos montes Pirineus. Comecei a andar distraidamente pelas ruas até chegar a uma praça onde estão os acessos para a majestosa basílica.  Havia ali um galpão comprido que abrigava uma feira de produtos regionais. Assim que entrei fui sendo abordado por vendedores franceses, argelinos, chineses e praticamente todos me ofereceram uma pequena amostra do que vendiam. Um pedacinho de queijo, de linguiça, de chouriço, pão com azeite, azeitonas.  Fui atravessando a feira e comendo de graça já que estava na hora do almoço. Na última barraca comprei uma água mineral e me dirigi para o acesso a basílica. Era uma escadaria íngreme e comecei a subir lentamente apreciando a magnífica paisagem. Já tinha subido uns duzentos degraus quando senti o primeiro reboliço intestinal. Conhecendo minhas entranhas de experiencias anteriores pensei estou em apuros. Olhei para cima e não vi o fim da escada. Tomei uma decisão, melhor descer. A subida exigiria mais esforço o que talvez precipitasse a avalanche que se anunciava. Comecei a descer rapidamente os degraus e voltei ao galpão procurando por um banheiro. Meu francês era limitadíssimo e a mímica para esses casos é meio constrangedora. Avistei a salvação. Uma porta onde se lia “Toilette” pensei estou salvo. Quando estava chegando saiu uma senhora de lá e eu pensei esse é o banheiro feminino. Não tendo como ir muito mais longe pensei, vou invadir esse mesmo e seja o que Deus quiser. Entrei correndo pela porta e enfim descobri que a entrada era única mas tinha uma divisão lá dentro. Corri para o lado masculino e me instalei justo a tempo de começarem as chuvas e trovoadas. Após uns dez minutos me convenci que já podia sair, e ao fazê-lo reparei numa bandeja de contribuições com uma pequena placa com o valor sugerido 1F (um franco).  Coloquei a moeda e saí, passando por uma senhora com jeito de árabe me olhando com cara de poucos amigos. Devia ser a faxineira de plantão.  Não andei dez metros e a coisa apertou de novo, voltei correndo, joguei mais um Franco na bandeja. Saí e voltei algumas vezes. Por fim acabaram-se as moedas. A menor nota que eu tinha era de 10 Francos. A senhora que já estava sorridente me deu a entender que não tinha troco. Acenei com as mãos para ela que fosse abatendo as minhas entradas e saídas na nota. Quando enfim me senti seguro ela me devolveu 4 Francos em moedas e saí finalmente aliviado. Caía uma chuva  fina quando deixei o banheiro e saí ao ar livre. Avistei uma “Pharmacie” do outro lado da avenida.  Fui apressado em direção a farmácia amedrontado com a volta dos sintomas. O sinal de transito abriu, fiquei ali ao lado da avenida na chuva, com as pernas juntas enquanto passavam os 30 segundos mais longos da vida.  O farmacêutico me recebeu com um sorriso e consegui dizer duas palavras que havia decorado de um pequeno dicionário de bolso enquanto estava no banheiro: “diarreic”, “colic”. O bondoso homem vendo minha aflição me levou ao banheiro ótimo, salvo pelo gongo novamente. Quando saí ele mexia um remédio manipulado e me deu.  E, como se fosse um milagre de Nossa Senhora de Lourdes, passou.  Esperei uma meia hora e fui novamente enfrentar as escadarias. Um daqueles petiscos devia conter Nitroglicerina.  Ah, e o remédio tinha o irônico nome de “Arroyan”.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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