A TRAVESSIA…

           O velho ônibus sacolejava pela estrada de Terra nas proximidades de Ciudad Juarez no México. A bordo cerca de quarenta passageiros exaustos, sedentos, famintos, não viam a hora de chegar. Fabrício estava viajando há quase sessenta horas desde que deixara o aeroporto de São Paulo. Pesava mais em sua bagagem o arrependimento. Vivia ilegalmente nos Estados Unidos há oito anos. Sua mãe não contendo a angustia e a saudade viera visita-lo nos arredores de San Francisco. Após três meses preparava-se para voltar ao Brasil. Fabrício sentiu pena da mãe, já bem idosa, viajar sozinha, e  mesmo sabendo dos riscos, resolveu acompanha-la na viagem de volta. Tentou voltar por vias normais, de avião, e foi detido e deportado do Aeroporto de Nova Iorque.
Como sua mulher e filha ainda bebê  continuavam em San Francisco, não teve escolha. Arranjou um empréstimo e programou  a volta pelo México, contando com os serviços dos famosos “coyotes”, pessoas grosseiras e sem escrúpulos que auxiliavam na travessia da fronteira americana, mediante pagamentos variando conforme o risco. Escolheu uma com risco médio, e agora sacolejava naquele velho  ônibus. O Itinerário era comunicado apenas por etapas, em menos de uma hora chegaram a um velho casarão na zona rural de Ciudad Juarez. Foram despejados com ordens para não se movimentarem fora da casa, não acenderem luzes a noite até novo contato. Ali ficaram três dias. Receberam comida uma única vez, trazida por um rapazinho mexicano em uma bicicleta de carga. Constava basicamente de  carne seca, farofa, e vários pacotes de bolacha. De dia fazia um calor infernal, e a noite muito frio, similar a clima de deserto.  À meia noite do terceiro dia foram embarcados silenciosamente em três vans, que os levaram a diferentes pontos da fronteira para a travessia. A de Fabrício chegou a um local chamada de “Piedra Negra” na margem direita do rio Grande, ainda em território Mexicano. Teriam que cruzar o Rio pra chegar ao Estado americano do Texas. Os coyotes falavam em voz baixa sobre a travessia, seus perigos, a correnteza, e avisavam que quem se perdesse do grupo seria deixado para trás. Nesse momento Fabrício lembrou-se que seu nado era muito curto. Nadava um cachorrinho mais ou menos. Pediu um colete salva vidas. Depois de muitas risadas, e chacotas, recebeu uma  câmara de ar provavelmente de moto. Caminharam cerca de uma hora até a margem do rio. O caminho já estava preparado pelos coyotes do lado americano. No local combinado tinha uma corda amarrada nas duas margens do rio que serviria de apoio para a travessia, e logo após cortada e recolhida para o lado mexicano. Fabrício hesitou, pois a água estava muito fria. Sentiu um pontapé no trazeiro e caiu dentro do rio onde todos já estavam e começaram a atravessar. As três e meia da manhã, pisaram em solo americano. Apesar do cansaço puseram-se imediatamente em marcha para atingirem o esconderijo onde permaneceriam até a passagem da ronda de “la migra”, agentes do departamento de imigração americano. Numa gruta apertada e quente permaneceram trinta e seis horas, quando os coyotes se convenceram de que poderiam seguir. Fabrício tinha emagrecido uns cinco quilos desde sua partida. O Pior era a tensão. Ao menor sinal dos guias todos saiam do caminho e se escondiam como podiam, ficando imóveis por horas para não serem visos pelos telescópios da polícia.

            Finalmente foram avisados que no dia seguinte chegariam a uma estrada vicinal e que ali as seis da tarde pararia uma Van. O motorista desceria para urinar, e nesse momento todos deveriam abandonar os abrigos e embarcar. O tempo seria de uns 30 a 40 segundos. Fabrício foi dos primeiros a abandonar sua trincheira e correndo entre pedras e cactos, mergulhou de barriga no assoalho da van. Sentiu vários corpos se sobreporem ao seu e em seguida o veículo partiu rumo a San Antonio, onde seriam desembarcados em esquinas diferentes, e daí em diante cada um por si. A mulher de Fabrício reservou um quarto num pequeno motel em San Antonio para esperar por ele. E foi ali que recebeu seu marido magro, esfarrapado, e sem tomar banho há seis dias. E ali Fabrício jurou que se mamãe vier de novo, voltará sozinha.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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