A PAINEIRA…

             Ao sair bem cedo para recolher o gado para a ordenha, Seu Joaquim observou que durante o temporal da noite passada, um raio havia derrubado uma majestosa paineira no alto do morro em frente à sede da fazenda Oriente. Logo depois do almoço, chamou o filho mais velho, mandou que enchesse uma cabaça com água pois iriam subir o morro para recolher a paina, material usado para fazer travesseiros e almofadas na época. O garoto obedeceu. Enquanto seu pai tomava um café, entreteve-se com algumas galinhas que ciscavam no quintal, e quando saíram não se lembrou da água.  Já estavam a mais de um quilometro da casa, sob sol causticante quando o menino começou a ter sede e então percebeu que não tinha trazido a cabaça. Seu Joaquim argumentou que não demorariam muito, que dava para aguentar. O fato de saber que não trazia água, agiu no psicológico do garoto e a sede disparou. Uns quarenta minutos depois, chegaram à paineira tombada, e começaram a recolher paina, cada um com um saco de aniagem. A paina é um material muito leve, semelhante a algodão, como tinha muita espalhada pelo chão, o menino pensou que logo encheriam aquele saco e voltariam para casa. E a sede apertando. Quando o saco pareceu cheio avisou ao pai. Seu Joaquim aproximou-se, segurou a boca do saco e enfiou o pé direito dentro puxando para cima.  A paina comprimida reduziu seu volume a dez por cento, e ele disse ao filho para continuar recolhendo. A sede judiava, o sol castigava, e o menino recolhia paina. Começou a ter ilusões auditivas. Ouvindo um barulhinho de água corrente, correu para detrás de uma moita de capim colonião arrodeada de pedras e nada, nem uma gota era fruto de sua imaginação. Por mais três vezes repetiu-se a operação “pé no saco” e o volume da paina reduzia. Por fim, seu Joaquim deu-se por satisfeito e disse a frase que o garoto esperava há horas: “Chega, vamos para casa”.   O menino jogou o saco nas costas e desceu a encosta em desabalada carreira sem esperar pelo pai. Se sentia fraco mas continuava. O rego d’agua que servia a sede da fazenda parecia a cem quilômetros de distância.  Continuou correndo, lembrando os camelos quando sentem o “cheiro” da água após uma longa travessia.  A uns vinte metros do pequeno rego d’agua deixou cair o saco de paina e chegando a margem, jogou-se ao  chão de barriga para baixo e enfim bebeu até fartar-se. Seu Joaquim chegou de mansinho, abaixou-se alisou a cabeça do filho que ainda bebia e disse:  “Entendeu a importância de nunca esquecer a água? ”. Parece duro, mais era o seu jeito de ensinar. Hoje adulto, ao iniciar qualquer jornada, o filho se lembra da água.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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