INCOERÊNCIA…

               Sebastiana recebeu a ligação pela manhã. Há meses vinha gastando a sola dos sapatos distribuindo seu currículo em dezenas de empresas, pleiteando vagas, para auxiliar de escritório, tesouraria, contabilidade, qualquer coisa. Sentia-se entediada desde que se aposentara no serviço público, onde por décadas acumulara experiência, que a seu juízo a credenciava a voltar ao mercado de trabalho. Apressou-se em atender. Era o convite para uma entrevista de emprego numa das empresas visitadas. Acertaram para segunda feira as dez da manhã. Não cabia em si de contente, a vaga era para o setor de controle de estoque, atividade que ela gostava e tinha experiência. Levantou-se na segunda mais cedo que de costume, e após um rápido café da manhã encaminhou-se para a empresa. Era longe, teria que pegar dois ônibus. Chegou cedo, e resolveu passar o tempo numa galeria próxima, chegaria as dez para não demonstrar ansiedade.  Na hora exata entrou na empresa e perguntou pela pessoa com quem falara ao telefone. Foi encaminhada ao departamento de recursos humanos, e em poucos minutos estava diante de seu entrevistador. Apresentou-se, entregou os documentos solicitados e permaneceu de pé enquanto o homem dava uma olhada na papelada, fixando-se no seu RG, cuja foto parecia ter sido tirada num lambe-lambe de tão amarelada. Após pequena pausa, o homem voltou a olhar para ela, e sem sequer manda-la sentar disparou: “Dona Sebastiana, desculpe, mas há um pequeno problema. A senhora tem mais de 50 anos, e a empresa só contrata até os 40. Como vê, já lá se vão mais de dez de lambuja. Lamento que a senhora tenha perdido o seu tempo, mas infelizmente não posso fazer nada”. Irritada, mas resignada, arrancou os documentos da mão do homem e nem se despediu, até porque estava muda de raiva.

               No caminho de volta, lembrou-se de passar na Caixa Econômica para receber sua aposentadoria. Ainda espumando de raiva entrou naquela agência lotada, com filas enormes no caixa. Notou então que a fila de “idosos” tinha apenas seis pessoas. Resolveu entrar ali, pois afinal tinha acabado de receber aquele rótulo.  Em poucos minutos aparece um segurança e disse em tom educado: “A senhora não pode ficar nessa fila. Aqui é só para idosos, tem que ir para a fila comum”. Aí Sebastiana se descompensou: “Olha moço, acabo de ser recusada num emprego por ser velha. Chego aqui, entro na fila de velhos, vem o senhor dizer que não posso ficar porque sou nova. Assim não tem condição. As leis precisam entrar num acordo. Se uma pessoa é considerada velha para trabalhar, deveria fazer jus a todos os benefícios dos idosos”. Olhou de lado e viu que tinha virado o centro das atenções, então arrematou: “Não saio daqui nem morta, vá se entender com o seu gerente”. O segurança ficou inibido pela salva de palmas que Sebastiana recebeu, e saiu de mansinho. Deixou barato.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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