O MENINO E O JATOBÁ

        Fernando era o nome do pequeno nordestino que estudou comigo no ensino secundário. Era baixo, um pouco gordinho, mas tinha uma agilidade invejável. Se não me engano era piauiense, tinha um sotaque engraçado. Éramos amigos e compartilhávamos  as brincadeiras da turma, que na maioria das vezes consistia em brincar e jogar futebol nos campinhos que existiam no bosque que circundava nosso colégio. É onde hoje se localiza o parque Mutirama em Goiânia. Era na época um bosque denso, cortado por uma avenida e rico em frutas regionais como: guapeva, ingá, veludinho e jatobá.  Uma tarde, como não havia garotos suficientes para uma partida de futebol, Fernando resolveu subir num pé de jatobá, uma árvore alta, de troco grosso e que dá uma fruta horrível, mas ele gostava. É uma espécie de vagem de casca dura e espessa. Quando quebrada, libera sementes revestidas de um pó verde de gosto para mim deplorável, que adere fortemente aos dentes. Mas gosto é gosto. A árvore tinha uma inclinação em relação ao solo, que aparentemente facilitava a escalada.Fernando avaliou a situação e como seus braços eram curtos para abarcar todo o diâmetro do tronco, resolveu subir por uma árvore vizinha, mais fina e que tinha galhos comunicantes no alto com o majestoso jatobá. Já no topo, apanhou algumas frutas que jogou no chão. Balançando alguns galhos derrubou mais umas tantas. Quando já havia uns vinte ou trinta jatobás no chão, deu-se por satisfeito e resolveu descer. Não querendo descer pelo mesmo caminho da subida pensou: “o tronco é inclinado, vou descer pelo lado de cima e tudo bem”. Mas não contava com o pó que a árvore ia liberando sob o atrito de seu corpo, e que somando-se à força da gravidade foi desviando seu trajeto para o lado de baixo do tronco. Quando estava na lateral, e não conseguindo abraçar o tronco, sentiu que a queda era inevitável. Olhando para baixo com os olhos esbugalhados suplicantes e aflitos, gritou “alimpa o chão! alimpa o chão!” Calculei rapidamente onde ele cairia passei correndo por ali chutando as pedras maiores e os galhos secos. Antes de me virar ouvi o baque às minhas costas. Fernando esborrachou-se no chão e ali ficou um longo tempo deitado de costas, se contorcendo em dores e olhando para a majestosa árvore que o derrotou. Quando enfim levantou-se, começou  a andar lentamente para ir embora perguntei: “não vai levar os jatobás?” Sem se virar respondeu: “nunca mais como essa merda”. Fernando tronou-se policial. Quando o via pela cidade recordávamos este episódio engraçado, mas que felizmente não teve maiores consequências.

AVP-17/05/2020

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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