QUE SUSTO…

QUE SUSTO…

                 Ouvindo o toque da campainha olhei para o relógio ainda não eram seis da manhã. Quem poderia ser? Levantei-me devagar abotoei o pijama e não encontrando meus chinelos fui descalço mesmo, enquanto repetiam o toque várias vezes. No caminho até a porta fui pensando quem seria. Nestes tempos nebulosos uma visita neste horário sobressalta qualquer um. Um calafrio me percorreu a espinha quando pensei: será que é a polícia federal? Porque estariam no meu encalço? Teriam por acaso descoberto que fumei maconha na juventude,? Que participei de protestos contra a ditadura nos quais joguei uma pedra em um ônibus atingindo um dos pneus e quase me ferindo no rebote? Não, não deveria ser, isso já faz tanto tempo. Talvez tivessem descoberto que omiti alguns rendimentos da receita Federal. Não, isso todo mundo faz, acho que nem deve ser crime. Estou meio gordo, vai ser difícil entrar na traseira do camburão. Mas porque o camburão? Acho melhor pegar uma toalha para esconder a cabeça, o que que os vizinhos vão pensar? Eu não fiz nada, que atrevimento é esse a esta hora da manhã? A não ser que tenham me dedurado por uma carta que escrevi para a Universidade Patrice Lumumba pleiteando uma vaga para estudar ali. Mas eu tinha dezoito anos, foi um arroubo da juventude, era romântico se passar por comunista. Puta que pariu, será que a imprensa está aí fora? Tô lascado, nem sei porque mas tô lascado. Será que é trairagem de minha ex-mulher? Mas eu paguei a pensão certinho, durante o tempo combinado, não isso também não deve ser e aí não seria a polícia federal. Ah, vai ver que e um engano, devem estar procurando outra pessoa. Mas não sei não, esse pessoal quando encasqueta com um não tem jeito, o mortal vai parar na chefatura. Andei vendo uns vídeos eróticos na TV, será que descobriram? Que tipo de crime seria esse? Também tenho discutido política com muita gente, e nunca se sabe se não tem algum informante infiltrado. O corredor até a porta me pareceu mais longo que de costume. Minha cabeça a mil por hora tentando descobrir um motivo para a polícia desencadear uma caçada contra mim. Aí veio outra dúvida: será que eu tinha algum documento que me incriminasse? Não eu já estava acuado não daria tempo de destruir nada. Enfim me conformei, tô fudido mesmo. Não tenho amigo advogado, se tivesse até que seria mais fácil, mas não tenho. A campainha insistiu aí não tive escolha. Quer saber? vou abrir a porra desta porta e seja o que Deus quiser. Olhei pelo olho mágico e me pareceu ver uma farda, mas não vi o rosto. Destranquei a porta já sentindo o desconforto das algemas e fui logo dizendo de cabeça baixa: “podem revistar tudo, levem o que quiserem, estão prendendo a pessoa errada”.  O síndico do prédio, com uma cara apalermada disse:  “O que é isso seu Afonso? Desculpe incomoda-lo mas um dos moradores bateu no seu carro lá na garagem, preciso que o senhor venha ver”. Aí eu cantei de galo: “Tem barbeiro demais neste país, vamos lá, ele vai ter que pagar o conserto, vou só calçar meus chinelos”. Puxei a porta e saí acompanhando o síndico. Nunca fiquei tão feliz de terem batido no meu carro.

AVP-29/06/2020

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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