BICO DOCE

BICO DOCE

Seu Tito era a imagem da tranquilidade. Ex-gerente do Banco do Brasil, aposentado há dois anos. Veio de Uberaba com a mulher e os quatro filhos e instalaram-se numa casa grande na minha Rua. Integrou-se com facilidade à vida do bairro, e logo todos o conheciam. Talvez por força do hábito andava sempre de terno, sapatos brilhando. Parecia ainda no exercício das antigas funções. Era um homem muito agradável, bonito e super bem vestido. Contrastava bastante com os homens simples e simplórios da vizinhança. Parecia um “marinheiro” no arroz. Desde o princípio todos começaram a notar que seu Tito saía de casa todas as noites por volta das sete e meia no seu velho Chevrolet preto e regressava por volta das onze. Eu achava uma mania esquisita para um pai de família, mas enfim não era da minha conta. A mulher e os filhos pareciam não ligar, e ele seguia vivendo naquele ritual diário, incluindo fins de semana e feriados. Ele dizia ser viciado em cinema, que desde jovem tinha aquele hábito de assistir um filme diariamente. Naquela época a cidade tinha quatro salas de cinema então ele provavelmente via filmes repetidos. Era uma história estranha. Começou a intrigar-me o fato de nunca tê-lo visto em nenhum filme. Eu também gostava de cinema embora nem tanto. Ia quase toda semana e ficava de olho nos filmes novos que chegavam, a partir de um determinado tempo comecei a ficar de olho também no Seu Tito. Não me lembro de tê-lo visto uma única vez. A explicação era sempre a mesma “foi ao cinema”. Nunca levava a mulher, nem os filhos dizendo que aquilo era um vício e que não queria envolvê-los. A família do seu Tito parecia não se incomodar com a situação. Na verdade a vizinhança preocupava muito mais do que eles, o que provocava muitos mexericos. Tudo estaria bem provavelmente até hoje, não fosse o fato do seu Tito ter enfartado e morrido. A situação começou a ficar clara já no velório. Cheguei por volta das onze da manhã e fui cumprimentar dona Celina, a viúva. Dona Celina aceitou emocionada os meus pêsames, e me apresentou outra senhora também chorosa à beira do caixão. Pensei tratar-se de uma uma irmã dela, ou do próprio falecido. Então ela disse com uma voz surpreendentemente calma: “Esta é a Marilda, também viúva do Tito”. Devo ter feito uma cara muito estranha pois Dona Marilda estendendo a mão para me cumprimentar, perguntou: “Está surpreso? Fique tranquilo, você não é o único” Dona Celina acenou para que não continuássemos aquele assunto ali, na cabeceira do morto. Discretamente me disse “Depois eu te conto”. Na missa de sétimo dia lá estavam as duas novamente. Vendo que elas tinham chegado de táxi, me ofereci para leva-las para casa depois da celebração. Chegando lá fui apresentado a três jovens que eram filhos de Dona Marilda. Depois de me oferecerem um café sentamo-nos na sala e as duas foram me contar a história. Seu Tito tinha duas famílias que viviam de forma amigável e harmônica. Isso já durava quase quinze anos. Primeiro casara-se com Celina, tiveram quatro filhos. Assumindo a gerência de uma agencia do Banco numa cidade menor seu Tito permanecia ali a semana inteira e só voltava para Uberaba nos fins de semana. Nesse interim Dona Marilda começou a amenizar a solidão das noites de seu Tito, e um dia “pimba”, engravidou. Não querendo abandonar a amante, seu Tito foi ficando naquela agência por anos seguidos, recusando oportunidades de voltar para perto da família. Dona Celina desconfiava mas tinha medo de enfrentar a situação. E Dona Marilda foi tendo filhos, depois do terceiro forçou a barra, queria ser assumida de forma definitiva. Então numa reunião para lá de civilizada, resolveram pelo arranjo que pareceu menos danoso a todos. Seu Tito conseguiu a proeza de reunir as duas mulheres, aumentando sua família para duas “esposas” e sete filhos.Claro, morando em casas separadas. Não me disseram, mas deduzi que as duas pretendiam continuar juntas cuidando dos sete irmãos. Por sorte seu Tito tinha recursos. Fui para casa completamente surpreso com a historia, e pensando que a rigor nada tinha de errado a não ser aos olhos dos formalismos legais. Se estava bom para ambos os lados não seria eu quem iria julgar. Sejam Felizes, mas tiro o chapéu para o poder de convencimento (bico doce) do falecido Seu Tito.

AVP-29/10/2020

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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