A AJUDA INDIRETA

Há muito tempo Heitor queria voltar à pequena Pontalina no sudeste goiano. Há mais de vinte anos saíra dali a contragosto, expulso pelo ex-patrão agora falecido. O velho empresário Max Engel, de origem alemã chamou o empregado naquela manhã e o ameaçou: “Você tem duas horas para desaparecer da cidade, ou vou mata-lo. Você abusou da minha confiança e agora não tem perdão. Vou a Morrinhos, e quando voltar já não quero mais vê-lo. Junte suas coisas e desapareça”. Mudo pela surpresa, pois não fazia a menor ideia do que o patrão estava falando Heitor ficou ali ruminando suas últimas palavras “Abusou da confiança? como assim?” Não fazia outra coisa a não ser cuidar dos compromissos e das posses daquele homem. Sacrificava seu tempo livre para acompanha-lo e assessora-lo. Não media esforços para estar justamente à altura da sua confiança. Que Será que aconteceu? Perguntou a si mesmo, mas pelo sim pelo não, conhecia muito bem o patrão e algumas de suas proezas fúnebres. Tratou de acelerar. Suas poucas posses cabiam numa sacola, então escafedeu-se. Embarcou no primeiro ônibus para Brasília. Tinha uns parentes por lá. Naquela época, 1975, a Capital era um efervescente canteiro de obras. Uma mistura de gente vinda de todos os rincões do País preenchendo as necessidades daquela jovem cidade que se desenvolvia aceleradamente. Arranjou um emprego na garagem do senado através de um primo e voltou a estudar. Trabalho e estudo é uma combinação infalível. Aos poucos Heitor foi escalando a pirâmide social, diplomou-se em direito, fez concurso para o Banco Central. Organizado, disciplinado e com um bom salário, fez um patrimônio relevante, atingindo um status de vencedor. Entretanto, durante toda essa trajetória, aquele episódio mal explicado, aquela humilhação que sofrera nunca deixara de incomoda-lo. Com frequência se lembrava daquilo e sentia que precisava desatar aquele nó que o prendia àquela fase sofrida de sua vida. Agora, aposentado estava ali de volta, revisitando o passado, ainda tentando encontrar uma explicação. Na verdade já tinha superado seus traumas, mas ainda estava curioso. Encontrou alguns amigos dos velhos tempos. Um deles, Felipe o convidou para jantar em sua casa. Enquanto tomavam cerveja e conversavam, Felipe já conhecendo a historia confidenciou: “Heitor, só te conto isso agora, porquê o seu Max está morto, senão eu também estaria em perigo. Naquela época surgiu uma fofoca que a Dona Sandra estava “costurando para fora” entende? Pulando a cerca como dizem. Seu Max fez o que pode para descobrir com quem, mas não conseguiu. Tinha algumas desconfianças e uma delas era você, pois você era de dentro de casa. Não querendo perder a mulher por quem era apaixonado, resolveu “nomear” um culpado, e escolheu você. Descarregou sua raiva expulsando-o daqui. Isso parece ter serenado seu orgulho de “corno”, nunca mais se preocupou com isso. Dona Sandra, passado o susto, continuou suas escapadelas com seu Afonso e você, meu amigo, está aqui hoje como um brilhante exemplo de sucesso. Você há de concordar, que uma mulher as vezes mesmo sem querer ou sem saber, pode impulsionar a trajetória de um homem. É ou não É? – Heitor jamais suspeitara disso, e não teve alternativa senão concordar. Foi visitar dona Sandra já velhinha, agradeceu em silencio enquanto tomava um cafezinho, fechou a janela do passado e voltou a Brasília. Caso finalmente encerrado.

AVP-22/10/2020

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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