A DÚVIDA

“Mamãe, estou afundando!” gritou Rebecca de seis anos. Clarice carregando o pequeno Gabriel no colo, olhou para trás e viu a menina se debatendo. Faltava pouco para atingirem a outra margem, Então apressou-se para deixar o pequeno à salvo e depois voltar para socorrer a filha. eram acostumadas a atravessar aquele braço do rio mas nesse dia alguma coisa diferente aconteceu.Voltou rapidamente mas já não viu a menina. Mergulhou desesperada em várias direções e nada. A correnteza não era muito forte e a água estava clara, mas nada, não viu mais vestígios da filha a não ser um pequeno bichinho de pelúcia que descia rio abaixo. Gritou por ela muitas vezes em sua aflição, sem resposta. Então, ainda com a água pela cintura, virou-se para o céu e disse em alto e bom som entre copiosas lágrimas: “Você não vai fazer isso comigo vai?” – Não é justo que me submetas a mais este sofrimento, depois de teres tirado meu marido naquele estúpido acidente. Eu simplesmente não aceito, entendeu? NÃO ACEITO. Devolva minha filha já, eu não suportarei mais esta carga de dor. Em seu estado de espírito estava prestes a romper definitivamente seus laços com Deus. Ouviu o choro de Gabriel, tinha esquecido do menino. Ainda desfiando seu rosário de queixas e reclamações a Deus veio vindo em direção à margem quando ouviu “mamãe! mamãe!” era a voz de Rebeca a uns oitenta metros abaixo. “Um peixe me salvou” gritou alegremente a menina. Clarice não viu a filha, mas apanhou rapidamente Gabriel e correu em direção à voz. Realmente a menina estava na margem, ainda com metade do corpo na água, desacordada. Naquele estado Rebeca não poderia ter gritado. Mas ela ouvira claramente a voz da filha o que poderia ter acontecido? Puxou Rebeca para fora da água, a menina não respirava. Colocou-a no chão e começou as manobras de ressuscitação que conhecia. Massagem cardíaca, respiração boca a boca, já vira aquilo na televisão, chegou a hora de aplicar. Algum tempo depois, a menina tossiu, expeliu grande quantidade de água e voltou a respirar. Seu coração aquietou-se um pouco. Não sabia explicar, mas tinha ouvido nitidamente a voz da filha. Com certeza não tinha sido Rebecca pois a menina estava desacordada. Sentiu um forte arrepio, ainda ecoavam em seus ouvidos as palavras duras com que se dirigira a Deus. Ajoelhou-se ali no chão, tendo o rio e o céu por testemunhas, fez uma prece de agradecimento que terminou com as palavras: “Perdoai-me oh Pai. por ter duvidado e desacreditado de ti”. Assim que Rebecca se recuperou, puseram-se novamente a caminho. Clarice olhou uma vez mais para o rio e avistou um boto que se afastava fazendo suas acrobacias e aumentando ainda mais o mistério.

AVP-27-10-2020

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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