O EXEMPLO

Talvez se chamasse Ulisses, ou Luis, nunca soube ao certo. Mas a mãe o chamava de “Lico”, e por esse carinhoso apelido que ficou conhecido na pacata São Luiz de Montes Belos, no Oeste Goiano. Muito alegre, risonho, tinha uma inteligência que classificamos de “borderline” em medicina. Segundo o Dr. Landó, que fez o parto, Lico nasceu muito roxinho, e demorou a chorar. Uma dobra no cordão umbilical privou seu cérebro de receber oxigênio por um tempo prolongado, dizia o médico. Andou e falou com atrazo em relação às outras crianças. Seu poder de concentração e inteligência não o permitiam aprender no ritmo dos outros meninos.Sua fala um pouco arrastada era rica em expressões próprias do interior. Já o conheci adolescente quando me mudei para lá. Era querido, uma espécie de filho de toda a cidade. Todos se sentiam em parte responsáveis pelo Lico. O que me chamava atenção nele durante todo o tempo eram sua altivez e seu orgulho. Embora fosse de origem muito pobre, não gostava de pedir. Estava sempre procurando trabalho. Capinava um lote, fazia entregas, e distribuía folhetos de propaganda para as lojas, supermercados, e outros estabelecimentos na cidade. E tinha uma particularidade que ele próprio alardeava “Eu não jogo as propagandas fora, entrego de porta em porta direitinho”. E era verdade, nunca se soube dele sendo desonesto com quem o contratava. Não tinha posses, também não passava fome. Morreu jovem, na casa dos quarenta anos se muito. É lembrado com carinho e agradecimento por todos. – Me lembrei dele há poucos dias quando saía de casa num bairro central de Goiânia. Ao parar num semáforo daqueles demorados, cercado por inúmeros veículos, vi uma moça de vinte anos mais ou menos, andando entre as filas de carros, carregando um cartaz de papelão com os dizeres “ME AJUDEM A COMPRAR UMA CESTA BÁSICA”. Olhava para as janelas dos carros enquanto andava e vez por outra recolhia uma doação, a maioria moedas. Na segunda vez que passei por ali, lá estava ela como seu cartaz. Na terceira também. Isto me fez deduzir que ela encarava aquilo como “o trabalho dela”. Não vou me atrever a julgar a moça pois isso não me compete. Mas ela parecia perfeitamente saudável. Numa das vezes a vi conversando alegremente com alguns transeuntes. Passei então a observar que o número destes pedintes aumentou muito nos últimos tempos. Não pude deixar de fazer a comparação. O saudoso Lico com todas as suas dificuldades e deficiências, era incapaz de pedir, não abria mão de sua dignidade, não aceitava nada sem prestar um serviço em contrapartida. Era uma questão de honra. Talvez fosse isso que fazia dele uma pessoa especial. Não tenho nada contra alguém pedir um prato de comida, ou mesmo ajuda financeira em caso de necessidade extrema. Mas não consigo entender pessoas jovens fazerem disso um hábito diário como se não tivessem capacidade para lutar. É lamentável mas é uma realidade social que devemos combater exigindo dos governantes melhores políticas para a educação e criação de empregos. Enquanto não melhorarem esses indicadores, conviveremos com pessoas que já nem sabem mais o que é dignidade, e isso Lico sabia bem o que era.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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