MILAGREIRO POR ACASO

O garoto foi trazido na ambulância de Sanclerlândia, com suspeita de fratura na perna esquerda após uma queda de cavalo. Seu nome era Sinibaldo em homenagem ao avô e tinha onze anos. Estava amedrontado e chorava não sei se de medo ou de dor. O médico em sua cidade tinha improvisado uma proteção com gesso e ataduras para imobilizar a perna durante o trajeto de pouco mais de quarenta quilômetros. O técnico fez as radiografias e não contente com as imagens me chamou para saber se deveria retirar a proteção para ter um resultado melhor. Examinei o garoto que ainda choramingava e desconfiei que era um pouco de manha. Autorizei a retirada da tala de gesso para fazer novas radiografias. Ao examina-las constatei que não havia nenhum traço de fratura e devido a um edema localizado suspeitei de uma leve torção no joelho. Resolvi recolocar a proteção para a viagem de volta. Como estava meio difícil de recolocar, e considerando que não tinha fratura, simplesmente joguei tudo na lata de lixo. A mãe do garoto me olhou incrédula “Doutor, o senhor não pode fazer isso, O doutor Heber passou um tempão colocando essa tala, e o senhor simplesmente joga no lixo?”. Cheguei a arrepender por alguns segundos, mas fui em frente. Pus o garoto de pé e pedi que se apoiasse na perna. O manhoso começou a chorar de novo então eu disse com voz autoritária “pode andar Sinibaldo, sua perna está boa, não tem fratura nenhuma”. Aos poucos ele foi se soltando e logo começou a sorrir e andar pela sala. A mãe e o acompanhante olharam um para o outro incrédulos, então a mãe disse “Como foi isso doutor? a perna estava quebrada, eu mesmo peguei meu filho no chão e a perna estava esquisita, meio torta”. Tentei explicar que talvez tivesse ocorrido uma sub-luxação no joelho ou na patela, que os próprios solavancos da viagem tivessem recolocado no lugar. Pareceu que iria ficar por isso mesmo. Nas semanas seguintes começaram a aparecer pacientes com diagnósticos de fratura já feitos para eu tirar a teima. Queriam fazer novas radiografias para ter uma nova avaliação. “Esse doutor aí que é o bão. O menino da Clotilde chegou aí com a perna quebrada, ele jogou o gesso no lixo e o menino saiu andando. Ele tem uma mão abençoada”. Sem saber o que fazer fui deixando rolar sabia que iria cair no esquecimento, mas levou meses. Vinha gente das cidades vizinhas. Dona Clotilde tinha dado testemunho em um programa evangélico de uma rádio local, aí sim, minha fama de milagreiro correu e não se limitavam a casos ortopédicos. Se eu tinha curado a fratura na perna do menino, também poderia tratar “mal de engasgo”, “espinhela caída”, e qualquer outra coisa. Se por acaso acontecesse outro “milagre”, aí ninguém segurava, ia ter romaria na minha porta. Felizmente ficou só no caso do pequeno Sinibaldo e com o tempo o povo foi esquecendo.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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