OS SEGREDOS DO PADRE

Padre Antero, chamado em seus aposentos, subiu apressado os degraus, atravessou o altar e entrou na sacristia, De lá vinham vozes aflitas, muitas pessoas falando ao mesmo tempo. A mais exaltada era Malvina, uma beata de seus cinquenta anos, que desde que se entendeu por gente frequenta a igreja, e cuida da casa paroquial. “Foi ele Padre, pegamos o safado com a boca na botija”. O padre olhou para o homem no centro da sacristia, contido por dois outros membros da congregação. Tinha estatura média, moreno claro, rosto marcado por uma acne rebelde, e tinha uns vinte anos. Reconheceu o rapaz, mas não disse nada. Era Everaldo, o sacristão de sua antiga paróquia há quase seiscentos quilômetros dali. “Podem solta-lo” disse o padre. “Mas padre, ele estava levando todo o dinheiro da coleta” disse a beata Malvina com sua voz característica, quase um falsete, “vamos esperar até a polícia chegar” insistiu ela. “Deixem-nos a sós” disse o padre, apontando a porta para os outros presentes. “Tem certeza?” perguntou um dos homens que segurava o rapaz. “Tenho, vou ouvi-lo em confissão”. Fechando a porta o padre virou-se para o rapaz e disse a meia voz, pois receava que os estivessem ouvindo atrás da porta. Malvina era bem capaz disso. “O que você está fazendo aqui? E que idéia é essa de roubar o dinheiro das ofertas?”. O rapaz alisando os punhos machucados pela corda que o amarrava, puxou uma cadeira e sentou-se com o espaldar para a frente, e começou um sincero e comprometedor diálogo com padre Antero. “Que espanto é esse padre? o senhor deveria saber que mais dia menos dia eu iria aparecer. As ofertas estavam aí dando sopa dentro da sacolinha, então aproveitei para fazer um vale. Mas eu vim mesmo foi receber minha mesada. Aliás, como demorei a descobrir o seu paradeiro já tem seis meses atrasados”. O padre estava pálido como uma vela, não esperava aquela desagradável visita. Há três anos, numa noite em que estava enfraquecido pelos desejos da carne, sucumbira aos furtivos e maliciosos olhares de Dona Zulmira, mulher de um importante político local, e começou a fazer-lhe companhia noturna sempre que o marido viajava. Numa dessas, quando saía já de madrugada ouviu passos atrás de si, virou-se, era o sacristão que o surpreendera numa situação indiscutível de flagrante. Aquele infeliz passou a chantageá-lo dali em diante, e foi apertando o cerco até fazerem um acerto. O Padre lhe repassaria uma quantia por mês em troca do seu silêncio. Com a mudança de paróquia Antero pensou ter resolvido o problema, e de repente, ele estava ali de novo, na sua frente. Com uma calma que não conhecia em si mesmo, pediu o rapaz para voltar no dia seguinte, assim teria tempo de reunir o dinheiro. Disse aos que o esperavam no interior da igreja que o homem havia se confessado, e que o tinha absolvido em nome de Deus. Era caso encerrado. Na manhã seguinte, espalhou-se logo cedo a notícia de que um hóspede tinha sido assassinado enquanto dormia na Pensão Santa Rita, na periferia da cidade. Padre Antero ficou mais falante, mais expansivo, parecia outra pessoa. Tudo indicava que sua vida entraria numa fase de tranquilidade. Dois meses depois um homem desconhecido, que assistira a missa no primeiro banco, aproximou-se e pediu para falarem em particular. Quando ficaram a sós o homem aproximou-se do padre e disse em voz pausada. “Sei de tudo. Quem fez e quem mandou, quero uma mesada mensal, senão vou abrir o bico”. O sacerdote deu de ombros e disse que não sabia do que ele estava falando. Mas pelo sim, pelo não, naquela mesma noite, escreveu uma carta ao Bispo dizendo que seu sonho era ser missionário na Amazônia e que gostaria de ser transferido para lá. Mas ele próprio sabia que nunca mais poderia livrar-se totalmente de seus segredos. Seria como tentar esconder-se de si mesmo. Ficou ali se remoendo por algumas horas e então decidiu-se. Rasgou a carta, jogou na lixeira, e na manhã seguinte procurou o delegado, contou toda a história e entregou-se à justiça.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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