O ENGANO

O clima estava um pouco frio naquela noite, mesmo assim os quatro casais ali presentes resolveram se instalar na varanda da Casa de Venâncio e Dinorá que eram os anfitriões da vez. Reuniam-se na última sexta-feira do mês, na casa de um deles para conversar, ouvir música, tomar um bom vinho. Era uma confraternização esperada por todos, e que acontecia há pelo menos dois anos. Sentaram-se ao longo de uma mesa comprida, as mulheres de um lado, em frente aos seus respectivos maridos. Era uma distribuição que facilitava a fluência do papo, pois os homens tinham lá os assuntos de interesse deles e pelos quais as mulheres pouco se interessavam, e vice-versa. Era sempre muito animado. Quando Bráulio estava, era uma beleza, trazia seu violão e faziam um concorrido karaokê. Tinha hora para começar e para acabar, chegavam por volta das oito da noite e terminava no máximo a meia noite. – As dez e meia, serviram o jantar. Cada casal trazia um prato ou uma bebida, tudo combinado antes para não pesar para ninguém. A conversa diminuiu de intensidade à medida que se entregavam às guloseimas. A certa altura, Pedro sentiu um pé alisando sua canela por baixo da mesa. Olhou para a esposa, sempre romântica e criativa e começou a imaginar um belo desfecho para aquela noite. Marina estava séria devorando um naco de bacalhau, era de se esperar que ela estivesse fazendo uma carinha sapeca. Mas, para sua surpresa quem fazia essa carinha era Isolda, sua comadre, sentada ao lado de Marina. Teve um calafrio, mas deixou correr, e o pezinho subia e descia por sua perna. Olhou para o compadre a seu lado e ele comia despreocupadamente. “Será?” pensou ele, como na verdade a maioria dos homens pensaria. “A comadre dando em cima de mim?”. Suas dúvidas acabaram quando sua Mulher levantou-se para ir ao toalete, e o pezinho continuou seu trabalho. Meio sem jeito, mas gostando daquele ‘assédio’, foi criando fantasias na cabeça. A anfitriã anunciou que a sobremesa estava servida. Ao se despedirem com os tradicionais beijinhos tão próprio dos brasileiros, Pedro sussurrou no ouvido da comadre Isolda “delicioso”. Ela pensando que ele se referia ao jantar respondeu “também achei”. Pronto o diabo tinha lançado suas cartas. Dois dias depois, Pedro criando coragem, procurou às escondidas no celular de sua mulher, o número da comadre. Era meio tímido, mas achou que não deveria desperdiçar aquela oportunidade. No meio da manhã, quando sabia que o compadre estava no trabalho, ligou: “Isolda, É Pedro tudo bem?”, Isolda estranhou, pois nunca recebera um telefonema do compadre. “Bom dia Pedro, o que que houve, algum problema?” Aí foi sua vez de cair na real, Isolda devia ter pensado que alisava a perna do marido, nunca pensou que podia ter errado o alvo. Desconcertado, Pedro começou a gaguejar e tratou logo de disfarçar, “O compadre está aí? Queria convida-lo para uma pescaria”. Piorou a situação pois seu marido nunca gostou de pescaria. “Tá bom Pedro, eu dou seu recado, até logo” Ainda bem que a comadre não desconfiou de suas intenções, e nem estava ali para ver sua cara envergonhada. – Porque será que os homens se acham tanto? Ele nem tinha se preocupado em entender direito a situação e já concluiu: “A comadre está dando em cima de mim”. Existem milhões de Pedros por aí, com o raciocínio ao sul da fivela do cinto.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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