A SUBSTITUTA

Epaminondas trabalhava na área de computação de um grande banco. Era um trabalho noturno que se estendia até o começo da madrugada. Antes, trabalhava no horário normal, mas desde que passara no vestibular, tinha negociado com a diretoria do banco sua transferência para o horário noturno para possibilitar que fizesse faculdade durante o dia. No novo posto encontrou vários outros colegas na mesma situação e tornaram-se grandes amigos. Epaminondas era um tipo mais caladão, já com seus 35 anos, classificado como “sistemático”, pouco falava de si mesmo. O serviço de copa era mantido até as 23:00 horas quando Ivonete passava o último cafezinho para os rapazes e ia embora. Era uma moça simpática e de consideráveis prendas físicas. Ela também se beneficiava do horário para fazer cursinho durante o dia. Com o passar do tempo Epaminondas foi se aproximando como quem não quer nada, tomando todo o cuidado para os colegas não perceberem e logo começou a se envolver com Ivonete. Eram só escapadelas sem maiores compromissos, algumas até ali mesmo, nas dependências do próprio banco. Nenhum dos dois queriam vínculos pois Ivonete era noiva. Foram levando a doce vida, confiantes de que ninguém sabia. Inocência claro. Todos sabiam. – Um dia, sentindo fortes dores abdominais, Epaminondas foi levado às pressas para o hospital e diagnosticado com uma torção intestinal. Foi operado, indo depois se recuperar na casa de sua mãe no interior. Ficou afastado do serviço por 30 dias. Ao voltar ao trabalho, deu pela falta de Ivonete. Em seu lugar estava uma senhora morena, gorda, na casa dos 50 anos. Sem querer mostrar preocupação para não entregar seu caso com Ivonete, foi aguentando. Um dia, dois, três, até que não se conteve e foi falar com o Seu Gilson, gerente da empresa encarregada dos serviços gerais, inclusive do cafezinho. Foi direto ao assunto: “Seu Gilson, tinha aqui uma moça que servia o café, nem me lembro seu nome direito, acho que era Ivete, ou Janete, coisa assim. Ela foi demitida? Estou vendo no lugar dela essa velhota desengonçada, sempre de cara ruim. Assim não dá, faz mal até para o ambiente de trabalho, não dá para trazer a outra de volta?”. Seu Gilson, homem bonachão e afável, deu uma olhada em volta e disse em voz baixa para Epaminondas: “Entendo perfeitamente a falta que você está sentindo da Ivonete, é esse o nome dela já que você nem se lembra. Eu no seu lugar, também estaria doidão de saudades. Acontece que ela passou no vestibular e mudou-se para Brasília. Essa velhota aí, é minha mulher. Está só quebrando um galho uns dias até eu arranjar outra”. Epaminondas levou um susto e ficou imóvel, branco como um cadáver, com a boca semiaberta sem saber o que dizer. Seu Gilson levou na esportiva e arrematou: “Que bom que você não gostou da minha, assim não corro o risco de flagra-los em escapadelas por aí. Fique tranquilo, semana que vem já começa outra”. Saiu rindo baixinho deixando o outro ainda mudo.

AVP-03/02/2021

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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