QUE BELEZA!

Dona Edna, também conhecida por “Sinhá”, é uma senhora de 94 anos, natural do estado do Tocantins, que reside em Goiânia há quase cinquenta anos. Pessoa franzina, mas com uma saúde invejável, exceto por algum s problemas de visão não reclama de nada. Tem uma lucidez absoluta e uma grande vontade de viver. Mãe à moda antiga, teve 12 filhos. Zelou pela criação e educação de todos eles e ainda hoje os tem por perto, e exerce uma certa influência sobre a conduta da maioria deles. Perfeitamente consciente e informada sobre essa pandemia de SARS-COV-2, Dona Sinhá encara com tranquilidade o desenrolar dos fatos. Classificada como grupo de risco pela idade, espera com paciência o dia em que a chamarão para vacinar. Um de seus netos, inconformado com a demora, procurou seus amigos influentes, tentando antecipar a vacinação da avó. Depois de falar com várias pessoas, conseguiu uma vaga para vaciná-la em um posto de saúde de Senador Canedo. Levaria a avó num determinado horário em que estaria trabalhando uma determinada pessoa, e ali, através de arranjos e jeitinhos, vacinariam Dona Sinhá. Tudo resolvido e esquematizado, foi buscar a avó para levá-la ao posto de saúde para ser vacinada. Alessandro, o neto combinou com todos, menos com a principal interessada, a avó. Chegou na hora do café da manhã e disse a Dona Sinhá: “Vó, vamos ter que estar lá em senador Canedo as 10 horas”. Senador Canedo? Para quê? perguntou ela surpresa. “Para vacinar Vó, consegui colocar seu nome numa lista lá, através de um amigo meu. Vai ser só chegar, falar com uma moça e vacinar, sem atropelos, e sem aglomeração”. A velha senhora ficou pensativa por alguns instantes, depois virando-se para o neto disse: “Eu não vou meu filho. Vou esperar a minha vez aqui mesmo no nosso bairro. Eles vão ter que vacinar as pessoas daqui, portanto eu não vou. Se eu for, estarei tomando o lugar de uma pessoa de lá, que também tem o mesmo direito. Estou com essa idade e sempre vivi num Brasil deplorável no sentido moral. Com as pessoas se aproveitando desses expedientes para burlar a lei e levar vantagem em tudo. Então, quero dar minha modesta contribuição para que as coisas mudem. Agradeço o seu interesse e empenho, mas não vou”. O neto ficou mudo, mas no fundo sentiu tanto orgulho de sua avó que chegou a se emocionar. Ali tirou uma lição dupla: primeiro não ia mais usar esses jeitinhos para resolver nada. Segundo, que as pessoas nunca devem perder a esperança de que as coisas melhorem. Envergonhado e feliz, sentou-se ao lado da avó para tomar seu café da manhã. Bom seria, se os “fura filas”pelo Brasil afora, mirassem no exemplo de Dona Sinhá.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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