DUAS FACES

Não vi o homem chegar, quando percebi já estava no último degrau da escada que dá na varanda da velha fazenda. Sentei na rede procurando com os pés o meu par de chinelos enquanto dizia “boa tarde, quem é o senhor?”. Ele parou de súbito, virou-se para mim dizendo: “Boa tarde, desculpe, não tinha visto o senhor. Eu sou Quintino, antigo capataz desta fazenda, trabalhei aqui 13 anos, contratado pelo senhor Sinibaldo Barbosa. Ele ainda mora aqui? – Não, infelizmente não. Seu Sinibaldo era meu sogro, faleceu há seis anos. “É uma pena. gostaria muito de revê-lo”. Convidei o homem para sentar num comprido banco de madeira na minha frente, pedi a Nadir que passasse um café, e começamos a conversar. Eu tinha a nítida impressão que já o conhecia há muito tempo. Devo ter visto alguma foto antiga do pessoal da fazenda, pensei eu. Meu sogro gostava de fazer churrasco com os empregados, e tirava muitas fotos. Ele começou se apresentando “Sou Quintino Correia nascido em Tapiramutá no estado da Bahia. Fugindo da seca e da miséria peguei um pau de arara vim parar nesta fazenda. Para encurtar a prosa, Seu Sinibaldo me acolheu aqui depois de me dar um aperto e eu ter-lhe contado toda a história. Ele suspeitava que eu estivesse fugindo de alguma encrenca com a lei. Me olhando com aquele olhar bondoso ele me disse: “vou te dar uma chance. Junte-se aos homens da colheita de milho pela manhã”. E assim passei aqui 13 anos de minha vida. Trouxe minha mulher e meus dois filhos, Edileuza de 6 anos e Mateus de 4. Minha mulher passou a trabalhar aqui nesta casa, quando a menina fez 15 anos também veio trabalhar como ajudante. Saí daqui devendo muita obrigação para ele, mas tive que mudar pois os meninos precisavam de escolas melhores. Mudei para a capital, montei um pequeno comércio e estou lá até hoje. Neste tempo voltei aqui duas vezes para visitar seu Sinibaldo e rever os amigos. Eu o considerava mesmo como um pai. Mas o que me trouxe aqui desta vez, talvez eu nem devesse contar ao senhor porque o senhor não tem nada a ver com isso. É que Isabel, minha mulher morreu há dois meses, e antes de morrer me contou alguns fatos que eu desconhecia: Seu Sinibaldo por várias vezes tinha abusado dela e de minha filha. Era um homem de duas faces. Eu nunca entendi aquela danura de Isabel para ir embora. Dizia que aqui não dava para ficar, mas não me contava o real motivo porque o famigerado ameaçava me matar se ela contasse. Eu sempre pedia calma e dizia que quando os meninos precisassem mudar de escola a gente iria para a cidade. Só fiquei sabendo dessas barbaridades agora que ela se foi. Minha vinda desta vez foi para acertar as contas com aquele desgraçado, mas por capricho do destino cheguei atrasado. Não vou mais amolar o senhor. Levantou-se para ir embora. Ao passar pela janela da sala, olhou para dentro e viu uma foto grande do meu sogro na parede. Deu um passo para trás, sacou o revolver e descarregou todo o seu ódio, deu seis tiros na foto que ficou em pedaços. Nadir que voltava com o café deixou cair o bule, a bandeja, e o pratinho de biscoitos, ficou branca como cera de vela, enquanto corria chorando para juntar os pedaços da foto do pai. Virando-se novamente para mim, Quintino acenou mais uma vez com a arma ainda fumegando, entrou no Jeep que o trouxera e foi embora. Provavelmente se sentia vingado.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

2 comentários em “DUAS FACES”

  1. Muito bom ler os textos desse menino. Estilo leve, com um revoado suave de palavras que, sem rebuscamentos linguísticos, envolve o leitor e o coloca imerso no cenário onde medra o fato narrado. Esculpida pela imaginação do artista que ele é, sua obra vai imprimindo e sedimentando a cada dia.

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