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Tarcísio era um homem desregrado. Bebia e fumava muito deste que atingiu a maioridade. Agora na casa dos 45 anos era paciente frequente do hospital das Clínicas. Sua ficha era extensa, tinha umas dez páginas. Foi internado muitas vezes com os males inerentes aos vícios. Enfisema pulmonar, hemorragia digestiva, pancreatite. Alguns acidentes como quedas e até um atropelamento engrossavam seu prontuário. Era um fraco, nunca conseguiu abandonar o cigarro e o álcool. Ainda brincava, dizendo: “deixar de fumar e beber, é muito fácil. Eu mesmo já deixei umas vinte vezes”. Talvez até tenha tentado alguma vez, mas não teve forças suficientes. Um dia nos encontramos na sala de tomografia. Ele estava muito magro, e com uma cor de pergaminho. Não era meu paciente, mas, de tanto vê-lo por lá tivemos uma certa aproximação. Ele começou a falar em tom de arrependimento: “É doutor, eu sempre fui negligente com minha saúde, me achava o bam bam bam, mas parece que desta vez a coisa ficou séria demais. Estou com suspeita de câncer no pulmão. Não vai ser fácil, ainda tenho filhos que dependem de mim. Não esperava deixa-los tão cedo”. Calma rapaz disse eu, faça todos os exames primeiro, você está morrendo de véspera como perú no natal. Não tire conclusões precipitadas. A essa altura ele já chorava e dizia: “Eu sou o único culpado, devia ter tomado vergonha enquanto era tempo agora parece que já é tarde. Mas juro por Deus que se eu sair dessa, nunca mais bebo, nem ponho um cigarro na boca”. Pus a mão no seu ombro e disse: não perca a fé, faça os exames e depois conversamos. Pode me procurar se quiser minha opinião. Agora preciso ir trabalhar, boa sorte. Depois disso não o vi mais. Cheguei a pensar que tivesse morrido. Não conhecia nenhum parente ou amigo seu para me informar. – Um dia, cansado de fazer caminhada no mesmo parque. Chamei minha mulher e fomos para outra pista também muito agradável a alguns quilômetros de nossa casa. Ao passarmos por um quiosque vi Tarcísio sentado numa pequena mesa de pedra, as 10 horas da manhã com uma lata de cerveja numa mão, e um inseparável cigarro na outra. Parecia bem, tinha engordado um pouco, sua cor estava melhor. Conversava animadamente com outra pessoa e não me viu. No final da caminhada parei para cumprimenta-lo. Toquei no seu ombro enquanto dizia: Como vai amigo, há quanto tempo? Virando-se rapidamente para mim, seu rosto se iluminou de facilidade ao me ver. Levantou-se rapidamente e me deu um abraço enquanto dizia be alto: “GRAÇAS A DEUS DOUTOR, ERA TUBERCULOSE. Fiz o tratamento, e nem precisei parar de beber nem de fumar. Minha promessa era no caso de ser câncer.”. Não precisou uma ova! pensei. Percebi que era um caso perdido. Ele criava situações fantasiosas para justificar e encobrir sua falta de vontade de encarar o problema. Alegando um pouco de pressa disse apenas “Foi bom demais te rever, a gente se vê por aí”. E fui embora pensando que já estou muito velho para me envolver emocionalmente em causas que não me dizem respeito. Algumas pessoas entram numa espiral de autodestruição, e não conseguem mais sair. Isso também se aplica a qualquer tipo de droga. É lamentável.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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