LACUNA ABERTA

Eram pouco mais de seis da manhã. Chovia fino, mas não o suficiente para impedir a ordenha das vinte e poucas vacas que Sebastião tinha no curral.Cansou de esperar pelo sobrinho que já devia estar ali ajudando. Moleque difícil, temperamental, de poucas palavras. Era meio esquisitão para os seus 14 anos. Morava com eles desde os 10, quando sua cunhada faleceu e o marido dela mudou-se para Mato Grosso, deixando o menino aos cuidados dele e de Branca, sua mulher. Na noite anterior tinham tido um entrevero, pois o moleque queria ir com os outros peões a um baile na fazenda vizinha, a uns quinze quilômetros de distância. Sebastião não concordou por ele ser muito novo e nessas festas costumava ter muitas brigas depois que o álcool subia às cabeças dos presentes. Em grande parte por motivos passionais ou outras irrelevâncias quaisquer e não raro acabavam em mortes. E, além disso, precisaria dele logo cedo para ajuda-lo a tirar o leite. De modo que não permitiu. O garoto saiu amuado, resmungando e sumiu, não foi mais visto naquela noite. Não apareceu para o jantar, e não dormiu em seu quarto. “tem o gênio do pai” disse Branca ao marido. Amanhã cedo ele aparece para o trabalho. Mas até aquele horário nem sinal dele. Sebastião se desdobrava, fazendo tudo sozinho. Peava as vacas, amarrava os bezerros na pata dianteira delas e ordenhava. Depois soltava mãe e cria, caminhava uns 30 passos e descarregava o balde em um latão maior. Entretido naquela rotina, já tinha se conformado de que teria que fazer tudo sozinho mesmo. Quando ordenhava a última vaca, olhou por cima do ombro, viu o garoto se aproximando da cerca e disse “Agora não precisa mais, já terminei, onde você estava?” Não ouvindo resposta olhou novamente na direção do sobrinho e desta vez viu o cano da espingarda apontado para o seu peito. Não chegou a levantar, o impacto do tiro o projetou para a frente, jogando-o debaixo das patas da Braúna, a vaca que ordenhava, com a cabeça mergulhada no balde de leite que agora se misturava com o sangue e a lama. Branca que estava no monjolo socando o arroz para o consumo da semana assustou-se com o tiro, e pressentiu coisa ruim. Veio correndo para o curral precedida por Isabel, sua filha mais velha. Correram em direção a Sebastião caído na lama fria, Branca só teve tempo de colocar a cabeça do marido no colo, e Assistir aos seus últimos suspiros. Isabel subiu na cerca do curral e ainda avistou o cavaleiro se afastando. Reconheceu o primo pela cor da camisa.A espingarda ainda quente, foi deixada ao lado do paiol de milho. Nunca mais se soube com certeza daquele garoto. Alguns boatos diziam que fora assassinado lá pelos lados de Coxim no Mato Grosso. Não cheguei a conhece-lo, mas ele fez uma lacuna em minha vida. Impediu que eu conhecesse meu avô materno. Já o perdoei há muito tempo, mas nunca me esquecerei dele mesmo sem jamais tê-lo conhecido. Há muito tempo que uma vida vale pouco mais que nada.

Publicado por

AILTON V. PRIMO

Brasileiro, casado, médico radiologista, 65 anos

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