O MOTIM

Do fundo do poço

Brota a esperança

Viva, ardente, pujante

Dos que se supunham vencidos,

Dos cansados, dolentes, combalidos

Que súbito se agigantam

E clamam por respeito e liberdade

Mostram armas que outrora

Arredios, recusavam-se a empunhar

Coragem, força, e verdade

Vindos da apatia e da subserviência

Rebelam-se agora com todas as forças

Contra seus algozes e tiranos

Contra as forças que os mantém na escuridão.

Indiferentes aos traumas do passado

Atentos ao pulsar do coração

AVP-01/04/2021

VELHOS ERROS

Escrevo sem ambições jornalísticas ou literárias. Isso me dá uma certa autonomia para pintar com cores reais o que se passa nesse imenso balaio de gatos em que se tornou o Brasil, no que tange à administração pública. Ordens e opiniões desencontradas, tentam nortear o imenso rebanho em que se tornou a população brasileira, escravizada pelo medo e pelam desinformação. Refém de políticas mundialmente equivocadas que de concreto tem trazido apenas o aumento do ritmo de transmissão do vírus, e num curto horizonte trará um aumento descomunal da pobreza. Aliás, a pobreza e a miséria são os combustíveis do comunismo, socialismo, ou todo e qualquer regime totalitário que tire dos indivíduos a ambição e a vontade de trabalhar, de progredir. Hoje no Brasil observa-se uma agravante. Todo o debate foi transformado numa luta sem trégua para derrubar o presidente da república. O inimigo deixou de ser o vírus, passando a ser o presidente Bolsonaro. A sórdida campanha movida por interesse escusos e pela parte parcial e venal da imprensa, tem sido de imensuráveis proporções. A oposição ignora o fato de o STF ter amarrado as mãos do presidente e delegado a prefeitos e governadores a condução da pandemia. Imputam a ele tudo de ruim que tem acontecido, falta de leitos, de oxigênio, dificuldades de logística. Só não o acusam do não repassar recursos para estados e prefeituras. Tem repassado aos montes. Mas ninguém move uma palha no sentido da conciliação, da soma de esforços e da canalização dos recursos para o fim que todos nós desejamos: A vitória sobre essa ameaça que já nos aflige há mais de ano. A corrução segue sendo o maior fator de desagregação política e social ao mandar pelo ralo boa parte dos recurso, e das esperança de todos nós. Parte considerável dos políticos que gravitam em torno do presidente, formam um universo de fisiologismo deplorável. Se unem apenas para olharem para os próprios umbigos. A renovação dos componentes do nosso parlamento ainda é lenta, mas já nos trás esperanças de que num futuro a médio prazo nos livraremos das velhas raposas que ali ainda se alojam. É incrível que figuras rançosas e bolorentas ainda continuem sendo consideradas como solução para alguma coisa. Estão exigindo do presidente a troca de alguns ministros para acalmar as força políticas divergentes cuja expressão principal é o centrão. Só que para essas trocas, têm sinalizado com figuras já sobejamente conhecidas no universo da corrupção. Pasmem, estão ventilando agora o nome do ex-presidente Collor de Melo para o Ministério das Relações Exteriores.- Assim não dá, não tem cabimento. Precisamos virar essa página. Essas velhas figuras do atrazo serão aos removidas nas urnas, mas até lá, com a ficha corrida que têm não podem mais ser considerados a ocupar cargo nenhum. É um escárnio com a população que trabalha (quando deixam) e paga impostos.

O ANFITRIÃO

Houve um tempo, até meados do século passado em que os agentes sanitários, vinculados ao ministério da saúde andavam pelo Brasil combatendo doenças como malária, Chagas, febre amarela. Andavam de uniforme cáqui , com um tanque de veneno nas costas, ligado a um borrifador aplicando aquele produto fedorento (BHC) nas casa e as instalações das fazenda com o intuito de matar os agentes transmissores. Em geral eram bem recebidos pelos moradores devido à nobreza da causa. Quando a noite os surpreendia ainda na lida, costumavam dormir lá mesmo pela roça, desfrutando a cordialidade e hospitalidade dos fazendeiros e agregados. Silvino e Barroso já estavam naquele emprego há mais de dez anos. Naquele dia particularmente quente, tinham andando uns 20 quilômetros aspergindo aquela fedentina pelas redondezas. Resolveram pernoitar na fazenda Monjolo, propriedade de seu Napoleão, próxima à cidade de Itaberaí em Goiás. Pediram pouso, e foram instalados num pequeno quarto na antiga casa dos peões. Napoleão era um homem meio ranzinza, viviam só ele e a mulher naquele casarão. Tinha uma fama de avarento que o perseguia desde a juventude. Pão duro de dar dó. Depois de descansar um pouco, os dois amigos voltaram para a varanda para esperar o jantar. E toca de esperar. Sete horas, oito, oito e meia, nove e nada. Nem sinal de comida. A fome torturava os dois agentes, que ali, naquele ato representavam o governo federal, mas que nada lhes valia. Primeiro a prosa estava boa, contaram causos, riram à farta, mais a medida que a fome apertavas, as histórias foram raleando, começaram a aparecer com frequência expressões do tipo “pois é né!, É isso aí” seguidas de longas pausas, e comida nada. Silvino tomava um remédio para hipertensão arterial, mas vez por outra se esquecia. Virando-se para Barroso a certa altura da conversa, disse: “Esqueci meu remédio, vou pegar”. Barroso então ergueu a voz e perguntou: “Silvino, não faz mal tomar esse remédio com o estômago vazio?”. Napoleão nem se tocou, remexendo-se na cadeira, pigarreou, e, levantando para ir dormir disse com ar displicente: “Faz nada! Até amanhã pro cêis.” – Passando pela cozinha pegou a marmita que a mulher tinha deixado no canto da mesa, e foi comer lá no quarto”. Pela manhã os dois funcionários do governo, putos da vida resolveram ir embora sem se despedir. Mas ao entrarem no velho Jeep da antiga SUCAM, ouviram a voz de Napoleão que já estava no curral ordenhando as vacas. “E o pernoite, quem vai pagar o pernoite?”- Os dois se entreolharam e, em que pese o ridículo da situação, caíram numa sonora gargalhada enquanto aceleravam para a cidade, loucos para tomar café. Para fins de registro, no caminho para Itaberaí, anotaram na caderneta de atendimento: “Fazenda Monjolo, se os pernilongos não te matarem, a fome mata”.

BENDITOS

Bendita seja a água

Que lava a sujeira do mundo,

Bendito seja o fogo

Que incinera a maldade,

Bendita seja a oração

Que limpa a impureza das almas,

Benditos os homens de fé

Que nunca perdem a calma,

Benditos os homens que agem

Feitos de pura coragem,

Benditos os que resistem

Aos golpes da iniquidade,

Benditos os caídos

Por descaso ou crueldade,

Jamais serão esquecidos

Bendita seja a vida

Bendita seja a esperança

E bendita seja, a humanidade…

AVP-26/03/2021

AMIGA ETERNA

Quando menino sonhava

Pular de nuvem em nuvem

Até alcançar a lua,

Nunca consegui alcança-la,

Mas fiz com ela amizade eterna,

Já lhe contei

Todos os meus segredos,

Objetivos, esperanças, medos

De quem gosto, ou não gosto.

Respeito bem suas fases

Entendo seus recolhimentos

Nada lhe peço ou exijo

Exceto, que não me abandone

Que me inspire sempre

Desde o firmamento,

A ser um ponto que brilha

Diante de tantos tormentos…

AVP-25/03/2021

LÁZARO

Quando nos mudamos para aquela vizinhança, ele já vivia por lá há uns cinco anos, era chamado de Lázaro, mas ninguém tinha certeza se era esse o seu nome verdadeiro. Mulato, com cerca de 40 anos, estatura média, sujo, maltrapilho, e exalava um forte odor de precaríssima higiene. Passava seus surtos esquizofrênicos, que podiam durar dias, dialogando com personagens de sua imaginação. Às vezes passava um bom tempo batendo papo com um poste ou uma simples carteira de cigarros jogada no chão. Trazia pendurados ao corpo dois assentos sanitários de função absolutamente desconhecida. Lázaro era inofensivo, uma alma boas dentro de seus martírios. Seu Irani, um comerciante local deixava que ele dormisse num pequeno quartinho de que dispunha em seu terreno. De sua alimentação todos nós cuidávamos. Umas duas vezes por semana o segurávamos meio à força para tomar um banho, ao que ele era totalmente avesso. Nas noites mais quentes, Lázaro costumava dormir ao relento, debaixo de alguma marquise nas redondezas. Numa dessas noites ainda sem sono, embora já fosse madrugada, ouviu alguém pedindo socorro. Sentou-se e viu um homem correndo pela rua, vindo em sua direção. Uma motocicletas com dois ocupantes virou a esquina em perseguição ao homem. Lázaro num impulso inexplicável, saiu da sombra que o protegia e correu em direção ao fugitivo, gritando em altos brados “Acode gente! Estão atacando meu sobrinho. Corre para cá Bernardo, venha que o tio te protege”. Provavelmente Bernardo era uma figura de seus delírios. O fugitivo passou por ele e seguiu correndo pela rua. As luzes começaram a acender. Moradores mais corajosos se aventuravam a sair nos portões para ver o que era. Nesse instante, os perseguidores amedrontados, deram meia volta na motocicleta. Mas antes de se afastarem, um deles apontou a arma na direção a Lázaro e puxou o gatilho. O disparo o atingiu no peito. Morreu antes de ser socorrido. Nunca ninguém soube quem era aquele fugitivo, que num golpe de sorte teve sua vida salva pelos delírios e pela coragem de um pobre louco. Demoramos a nos acostumar com sua ausência. Passei um bom tempo perguntando mentalmente às carteiras de cigarros jogadas no chão: “Nosso amigo tem dado alguma notícia? Se falar com ele, diga que tenho saudades”.

PAPO RETO

Doutor

Estou indisposto, me sinto mal

Me dói a cabeça, a garganta

Estou meio rouco

Não sinto gosto, nem cheiro.

Tem febre, tosse, falta de ar?

Pode não tardar.

É Covid o que tens

Vá para casa e tome dipirona

Volte quanto piorar

Senão, é cova profunda.

Vira pra lá essa boca imunda,

Mesmo que você não endosse

Vou me entregar com urgência

Ao tratamento precoce…

O CORAL

Um bem-ti-vi cantou forte

Do alto de uma paineira

Acordou uma rolinha, sua vizinha

Somaram-se então os gritos

Dos periquitos

Duas araras passam desfilando

Aquarelas voadoras,

Levando encanto aos quatro cantos

Alegre homem, me levanto,

Mas já não canto

Quisera poder cantar

Para juntar-me ao coral dos felizes

Dos alheios aos deslizes e desacatos

Dos insensatos…

AVP-23/03/2021

JÁ VEM DE LONGE

Quando nasci, o Brasil tinha por volta de 50 milhões de habitantes, naquele tempo, a propaganda eleitoral se resumia aos contatos diretos com os eleitores, o aos comícios. Portanto desde bem pequeno acompanho propagandas eleitorais. É impressionante constatar que os métodos de que a grande maioria dos candidatos se valem, não para convencer, mas para iludir os eleitores continuam inalterados, mesmo agora, quando já caminhamos para duzentos e cinquenta milhões de brasileiros, hoje, ainda mais favorecidos pela evolução e proliferação dos meios de comunicação. Nunca assisti a um programa eleitoral, em que todos, sem exceção, até os mais ridículos e caricatos candidatos, espremidos em 10 segundos não usem o mesmo mantra: “Vou trabalhar pela Educação, saúde, e segurança”. – Vamos falar especificamente da saúde por ser o que mais nos aflige agora, nessa situação de pandemia. Depois de eleitos os políticos se comportam apenas de maneira protocolar, e esquecem do que se comprometeram com a sociedade. Perdem o foco do que realmente é importante e muitos acomodam-se com quatro anos de polpudos salários garantidos e pouco trabalham, tornando-se um peso morto para a sociedade. Só na próxima eleição voltam a abusar da paciência e a insultar a inteligência dos eleitores, prometendo as mesmas coisas. Todos os governos, uns mais outro menos, destinaram grandes volumes de recursos para a saúde (atualmente 10% do PIB). É muito dinheiro gente. Daria para termos um sistema de saúde pública muito melhor, se esses recursos não fossem desviados, mal direcionados, ou simplesmente tragado pela corrupção. Não precisaríamos estar passando por essa vexatória situação de ver doentes morrendo por falta de leitos de enfermaria, de UTI, insumos nos hospitais, medicamentos e por aí afora. Imaginem a montanha de dinheiro destinado a saúde que se foi pelo ralo por falta de planejamento adequado e pelo sugadouro da ilicitude. Daria facilmente para oferecer ao povo um sistema de saúde que atendesse suas necessidades, e acima de tudo respeitasse a sua dignidade. Essa situação já vem de muito longe, desde o começo da república brasileira. Não é agora, numa situação de emergência sanitária, que se deve responsabilizar apenas o atual governo exigindo solução rápida e imediata. Não existe mágica, a conta chegou. O dinheiro que está faltando hoje, é aquele que os maus gestores e os corruptos desperdiçaram e roubaram ao longo do tempo. – A classe política (mortos e vivos) tem responsabilidade sobre as dificuldades que passamos hoje. Não adianta só polarizar e politizar o debate, tentando por a culpa no presidente Bolsonaro como se fosse o único culpado, sobretudo depois de ter seus poderes amputados pelo STF. – A classe política precisa fazer uma autocrítica, e reconhecer sua parcela de responsabilidade por omissão. E, ao invés de isolar e tentar derrubar o presidente. Juntarem-se a ele no intuito de encontrar uma solução, a mais abrangente possível. Talvez essas providências sejam um pouco tardias para a situação atual. Mas pelo menos poderão evitar que passemos por outros angustiantes e vexatórios momentos como esse no futuro. Mas, só com o fim da corrupção, a solução virá completa. Portanto o combate a ela não pode jamais ser interrompido.

AVP-22/03/2021

A VIAGEM

Cumpra a sua missão

Com amor e dedicação

O resto deixe com a vida

Ela conhece os caminhos

Aprecie a natureza

Não se renda às incertezas

Se insistirem em chegar

Valorize o bem e a beleza

Que encontrares no caminho

Por mais que te sintas só

jamais estarás sozinho

Seja atento passageiro

Olhando pela janela

Apreciando a paisagem,

Não se esqueça no entanto,

Que a passagem é só de ida

E ao final da viagem

Enfrentarás a pesagem

De seus feitos e defeitos

No decorrer dessa vida…

AVP-21/03/2021